DUETOS
Kali
Estudante de Odontologia, ela tinha 25 anos e, prenhe de paixão e admiração,
disse para eleque nunca havia transado com homem nenhum. Disse que gostaria de
ter sua primeira relação sexual com uma pessoa especial de quem gostasse
muito. "É. Eu espero meu príncipe encantado, sim!" Ele ficou tão
surpreso quanto sensibililizado com aquele depoimento, e até agradeceu a
confiança de lhe confessar um coisa tão íntima no primeiro encontro. Louise
era o nome dela, e Fábio, o dele.
Embora já se conhecessem há algum tempo e trocado carinhosos elogios, era a
primeira vez que ficavam a sós. Dentro de um carro, numa estrada, sentiam-se
quase à vontade, não fossem duas questões quase intransponíveis: o perigo de
serem assaltados e o fato de ele ser casado.
Mas o papo rolou entre falas e beijos. Ela confessou que era muito difícil
para ela namorar um homem casado. Sua formação religiosa, católica, criava
uma confusão enorme em sua cabeça, embora quisesse estar exatamente naquele
lugar e em nenhum outro, mas evitava que ele tocasse em seus seios. Chego a
morder sua mão, à brinca. Ela disse ainda que uma ou outra amiga de faculdade
enfrentava uma situação dessas numa boa, pois conseguiam separar o que
consideravam a vida de um momento e do momento da vida, mas ela não. Era muito
difícil, dizia. Ele quis tranquilizá-la com o argumento de que suas amigas
conseguiam aquilo porque, para elas, o importante é extrair de cada instante a
sua própria magia, sua própria beleza. Disse, que independente de tudo o mais,
o desejo é belo em si mesmo, poético em si mesmo, independente das relações
sociais existentes além dele. Disse ainda para ela que igualmente para ele era
difícil porque tinha uma esposa maravilhosa e que amava muito. Mas a fala não
foi mais convincente que mais um beijo na boca, que ela, no início, tentou de
toda forma evitar, mas que agora não mais continha.
- Você não pensa em sua mulher?
- O tempo todo. Já pensou se ela aparece aqui?
Ela sabia de suas brincadeiras irônicas e sorriu um sorriso meio abatido,
meio confuso. Só sabia de uma coisa: estava apaixonada.
- Qual é o nome dela?
- Fernanda.
Ele abraçou-a e, entre sério e distante, lhe propôs irem a um motel.
"Não, não para transar com você, apesar de desejar muito, mas te mostrar
algumas coisas que você vai precisar saber quando encontrar com o seu príncipe.
O que acha?"
Ela o olhou com meiguice. Tinha muita confiança nele. Topou.
E para lá se foram. Os carinhos e os "ensinamentos" dos toques e
das posições foram tomando as proporções que a situação implorava. Já não
se importava de que lhe pegasse nos seios. Já não estavam mais vestidos. Não
suportaram. Se entregaram, um querendo devorar o outro.
- "Foi maravilhoso", disse ele ao deixá-la em casa.
- "Te adoro!", respondeu ao entrar.
Teria sido realmente maravilhosa aquela tarde romântica, não fosse por um
detalhe: Helena e Gilmar era um casal amigo de longa data de Fábio e Fernanda.
Então. Um amigo de Gilmar viu quando Fábio e Louise entravam no motel. E esse
amigo comentou o fato com Gilmar, pedindo segredo, pois também conhecia Fábio
e não queria causar confusão. Gilmar realmente guardou segredo, mas o problema
é que, numa reunião, Helena ouviu Fábio e Gilmar comentando o assunto.
No dia seguinte, o celular de Fábio toca. Era Helena.
- Preciso conversar com você urgente! E em particular!
- Pode adiantar o assunto?
- Não.
- Tudo bem. Onde nos encontramos?
Combinaram o lugar. Helena foi direta e incisiva:
- Estou sabendo que você foi para um motel com uma garota. Te viram. Não vá
negar!
- ...
- Se você também não me comer, conto tudo para a Fernanda.
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